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A Origem da Violência


J.B.Xavier


CRIME E DEPRAVAÇÃO – VÁLVULAS DE ESCAPE

Demonstra a História – e ela o faz cotundentemente – que os abismos sociais acabam por derrubar impérios. Ricos e pobres sempre existiram e sempre existirão, mas sempre que a diferença de poder aquisitivo entre ambos ultrapassa certos níveis, o sistema volta-se contra si mesmo e começa a se destruir, num processo autofágico difícil de ser contido e geralmente com conseqüências devastadoras.
Independentemente do país, do nível social, casta ou religião em que venha a nascer, todo ser humano é, em algum grau, livre, embora esses fatores costumem estabelecer o grau dessa liberdade.
Para os propósitos desta análise, esses níveis de liberdade são irrelevantes, uma vez que nos interessa apenas analisar os sonhos contidos dentro deles.
À medida que o fosso social se aprofunda, aprofundam-se também as diferenças de percepção do ambiente entre os mais e os menos favorecidos economicamente. Na juventude, durante os anos de adolescência, essas percepções adquirem um aspecto vital para a saúde social de uma nação.
A partir de certo grau, as diferenças sociais não permitem mais que uma classe aprenda com a outra, assimilando mutuamente as forças positivas que as movem. Ao contrário, estabelece-se uma espécie de antiaprendizado, no qual cada uma das partes parece absorver o que a outra tem de pior.
Assim, o jovem pobre, quando foge às regras sociais, parte para o crime. Ele não tem educação, nem bons exemplos a seguir. Tampouco tem esperança de que a classe rica vá lhe dar alguma oportunidade de progresso. Sem horizontes, sem perspectivas, o ódio aos poucos vai se instalando em seu ser e espraiando-se generalizadamente, acabando por emiscuir-se em seu dia-a-dia e por potencializar todos os seus dissabores e frustrações. Diante do enorme fosso aberto à sua frente, o jovem pobre desiste da luta, e substitui a moral pelo ódio, tornando-se brutal e selvagem como o delito.
O jovem rico, por sua vez, odeia também o anel de miséria que o rodeia, e vê nele um risco que o obriga a freqüentar ambientes fechados, gradeados e rodeados por todo tipo de parafernália que garantam sua segurança.
Essa insegurança fá-lo passar por momentos de contradição, entre a solidariedade aos menos favorecidos e a defesa de seu próprio bem estar social.
Ao contrário do jovem pobre, o jovem rico é requintado como a perversão. Assim, diante da constatação de sua impotência para resolver seus conflitos, ele se deprava, porque lhe falta a coragem para enfrentar as conseqüências do crime nu e cru. Depravação não traz sanções penais. Ela fica no campo da imoralidade, onde não pode ser alcançada pelo campo de ação do Direito.
O viciado em drogas, o ocioso, e todo tipo de desvios não drásticos de comportamento dos padrões tidos como normais, não é punido, porque não constituem crime. Os que incorrem nessas faltas, não irão presos. Assim, o jovem rico opta pela depravação que o jovem pobre, por grosseria, não tem requinte para apreciar.

SEXO – A CAUSA MAIOR


Muito dos desvios de comportamento na adolescência decorre de fatores ligados ao sexo. Grande parte dos problemas dos jovens de ambas as camadas sociais – ricos e pobres - vêm da ignorância sobre como administrar suas vidas sexuais.
Apesar dos progressos havidos no diálogo entre pais e filhos, a verdade é que – como disse o compositor Belchior em uma de suas músicas: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
A perversão sexual dos jovens é muito mais o resultado da falta de conhecimento dos jovens sobre a matéria, do que dos arroubos instintivos da juventude.
Não é raro os pais terem em casa filhos e filhas com sorrisos angelicais que, nos momentos em que se vêem livres da vigilância paterna, se entregam às maiores depravações sexuais.
Porque jovens meninas e rapazes saudáveis brincam com a própria saúde e se auto agridem até o limite do admissível? Desafio? Medo de um mundo que, a seu ver, não oferece condições de sobrevivência?
Muito desse comportamento tem causas muito mais simples e muito menos glamurosas do que alguns pais tentam se convencer.
Na vã esperança de se livrarem da responsabilidade pelo fracasso dos filhos como pessoas úteis à sociedade, muitos pais jogam a culpa no governo que não lhes dá – segundo eles – condições de educar os filhos, como se educar fosse papel do governo.
Ao governo cabe informar. Educação é o conjunto de normas de comportamento que faz uma sociedade funcionar, e isso somente a família pode fornecer. Ocorre que a constituição da família mudou através das eras e o atual modelo nuclear já não satisfaz algumas necessidades básicas de seus componentes, especialmente dos filhos.
De um encontro de pessoas com interesses uns nos outros, a família transformou-se num aglomerado de pessoas afeitas aos seus próprios interesses. Embora vivendo debaixo do mesmo teto, já não há entre pais e filhos o interesse genuíno de uns para com os outros.
Pais continuam a perseguir seus objetivos de vida numa louca escalada de correria desenfreada que não concede espaço para acompanhar os filhos em seus primeiros passos pela vida. Estes, por sua vez, ao serem colocados em segundo plano, rompem seus compromissos de fidelidade para com os pais e buscam respostas em gangues ou turmas que partilham de suas idéias.
Assim cria-se um fosso profundo, ainda que invisível entre pais e filhos no seio da própria família.
Obviamente conto com a compreensão dos leitores para as generalizações que são feitas nesta reflexão, entendendo que todos sabemos que exceções existem, e são elas, justamente, que permanecem como o farol seguro a indicar os caminhos.
A libido juvenil quando descoberta pelos jovens, desencadeia uma série de modificações estruturais no comportamento dos mesmos, com a conseqüente modificação de vários aspectos de suas personalidades. Os pais que ignoram esse fator ou o desconhecem, colaboram decisivamente para a depravação dos mesmos.
O afeto equilibrado – cada vez mais raro no seio familiar – é a única fórmula segura de angariar a confiança dos filhos e faze-los acreditar mais nos próprios pais do que nos amigos.
O contrário é, também, verdadeiro: A falta de equilíbrio comportamental nos pais, a diferença entre seus discursos e suas práticas, sua ignorância sobre o hedonismo sensual e não sensual da infância, explica em parte o número sempre crescente do homossexualismo de origem social, dos desvios severos de personalidade, dos estupros, da sevícia, dos suicídios juvenis, da prostituição precoce, e de muitas outras aberrações de fundo sexual.


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